Ordem da Rosa
Fe Alves
Imagina abrir uma mensagem e encontrar uma piada sobre a traição que você acabou de descobrir.
O assunto já chegou ao grupo, alguém acrescentou um emoji e agora tem gente esperando a sua reação, como se você devesse completar a brincadeira.
Falta a sua parte.
Você pensa em responder, mas apaga o começo. Qualquer palavra parece oferecer mais material para a roda.
Fica a vergonha.
Quem quebrou o acordo foi outra pessoa, e agora, diante da mensagem, você está calculando como aparecer na frente dos amigos.
Talvez até ensaie uma risada para mostrar que aguenta, enquanto procura um jeito de sair da conversa sem oferecer outro motivo para zombarem.
Fica tudo com você.
Olha o serviço que estão cobrando de você: sofrer a traição e ainda facilitar a diversão de quem comenta.
É coisa demais.
Eu nunca vou entender essa porra de tratar lealdade como burrice. A pessoa confiou em alguém com quem tinha um compromisso.
Quando esse compromisso é quebrado, ela recebe um apelido. Quem mentiu pode até ganhar fama de esperto.
Você já reparou em quem precisa se explicar nessa história?
A pergunta costuma chegar depressa: “mas você não percebeu nada?”
E aí a conversa muda de dono, quase sem ninguém perceber. Vamos olhar para essa mudança com calma.
A pergunta que transfere a cobrança
Existe diferença entre tentar compreender o que aconteceu e responsabilizar você por não ter impedido uma escolha alheia, feita enquanto existia um acordo entre vocês.
A diferença aparece no próximo passo da conversa, porque quem quer compreender consegue perguntar e deixar você terminar antes de emitir uma condenação.
Quem quer transferir a cobrança já traz o veredito: “também, você confiava demais!”
Repara no caminho.
Uma pessoa descumpriu o acordo, mas a explicação passa a procurar um defeito em quem acreditou nele.
Você confiou demais, viajou demais ou
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