Ordem da Rosa

Leia isto se você já conferiu o celular de alguém

Fe Alves

Ele entra, larga a mochila na cadeira, te beija na boca sem olhar. E o dia dele te chega resumido assim: “o dia foi puxado.”

Janta com o celular ao lado do prato, e às 22h e pouco já está deitado, de costas, respirando pesado.

Pra uma câmera fria no teto da cozinha, o laudo caberia numa linha só: homem cansado, fim de terça. E mais nada na cena.

— Tá estranho hoje. Aconteceu alguma coisa? — Tô cansado.

Cinco minutos, foi o que levou. De um “tô cansado” até o filme completo: a colega do trabalho, o perfil que postou hoje, o silêncio no carro, o beijo frio, a cama virada, você sozinha.

E o corpo já assinou embaixo: coração alto, estômago fechado, aquela friagem no ombro que você conhece de outras noites.

O corpo não distingue ameaça real de ameaça ensaiada, e pros dois perigos ele reage exatamente igual.

A insegurança não é informação. Ela chega com cara de certeza, com aquela voz de “eu sei”, e você confunde a força do sentimento com a verdade dele.

E repara no detalhe que entrega o golpe: os personagens mudam. Hoje é a colega. Amanhã é a ex, depois é uma desconhecida qualquer.

Mas o enredo é sempre o mesmo.

Você não é suficiente, vão te trocar, e o amor sempre vai embora de você.

Os personagens mudam. O enredo, não.

Agora pensa comigo.

Se a máquina conta a mesma história independente do que aconteceu na cozinha, de onde é que essa história vem?

Não vem da cozinha. O roteiro já estava escrito e a terça só emprestou os atores. A colega entrou por acaso, o filme é antigo. É a tela que é nova.

Você está esperando a queda, e por isso cada humor, cada silêncio e cada “visto por último” vira capítulo.

E você não relaxa nunca, porque relaxar, nessa lógica, é ser pega de surpresa.

Alguém te ensinou que isso era zelo, e chamou isso de cuidado.

O nome disso é medo, e chamar de amor é generoso demais. Quem ama com medo, pô, está mesmo é se protegendo.

O preço não aparece na primeira noite.

Você para de receber o que a pessoa está te dando, e passa a receber só o que a ferida já tinha decidido.

Um silêncio chega como rejeição, uma demora chega como veredito. Com tanta coisa

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