Ordem da Rosa
Fe Alves
Era domingo à tarde, ninguém puxando nada, e o celular quieto em cima da mesa.
Sem reunião, sem cobrança, sem ninguém precisando de você. Uma tarde inteira, e ela era sua.
Você tinha vontade. Chegou a abrir o arquivo e ler as doze linhas de ontem, olhou o tênis do lado da cadeira.
Começou a escrever a mensagem difícil e parou no segundo parágrafo. E aí, sem drama e sem uma decisão consciente de desistir, você foi fazer outra coisa.
Foi até a cozinha, abriu a tela, respondeu uma conversa que podia esperar até segunda.
O arquivo, o tênis e a mensagem ficaram exatamente onde estavam. A coisa saiu da pauta entre um pensamento e o próximo, e você nem viu quando.
Não foi batalha perdida. Não teve batalha.
Uma hora depois você já estava no looping de sempre: desconforto, distração, alívio passageiro, desconforto de novo.
E à noite veio a pontada, sempre a mesma, com a explicação já embutida: eu não tenho disciplina.
É essa frase que eu vou desmontar hoje.
Ela está tecnicamente errada, e é só por isso que eu vou desmontá-la. Consolo você acha em outro lugar. Enquanto você acreditar nela, vai continuar aplicando o remédio certo na doença errada.
As três explicações que não funcionam
A primeira explicação é preguiça, e essa cai rápido.
Você já ficou até às 3h resolvendo o problema de outra pessoa. Já entregou o sábado e o domingo por prazo que nem era seu.
E no domingo, com o caminho livre, passou reto pela porta do que era seu.
Preguiça não escolhe, e o que você tem escolhe (com uma precisão impressionante).
Disciplina desigual
A segunda é falta de disciplina. Se o problema fosse esse, ele seria uniforme, e ele não é.
Você nunca atrasa a entrega do cliente, mas não consegue começar o projeto que tem o seu nome.
Cuida da consulta da sua mãe com dedicação militar, e há dois anos não marca a sua.
Chamar isso de falta de disciplina é generoso demais. O nome disso é disciplina distribuída de forma bem desigual.
Medo é quente. Aquilo foi frio
A terceira é medo, e essa merece atenção, porque medo existe mesmo.
Tem coisa que você não faz e sente na hora. Aperta o peito, embrulha o estômago e dá vontade física de sair da sala.
Isso é medo, e é real.
Mas o domingo não foi
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